Breve ensaio sobre o café
Recebemos mais uma correspondência. Essa é da @naylaavelar.
Como boa mineira, comecei a tomar café bem pequena. Era um costume super comum lá em casa e também nos encontros de família, quase sempre conduzido pelo jeito doce das minhas avós, Maria e Elza. A minha versão do café pra menores era diferente. Adocicada, fraquinha, quaase fria, perfeita pro meu paladar curioso. Ainda lembro direitinho do cheiro tomando conta das cozinhas e daquele sabor incomum que me inundavam de bem-estar. Sem nem imaginar, eu já tava herdando, ali, uma forma de enxergar, ressignificar e entender as raízes da experiência de preparar e consumir café. Uma tensão constante entre tradição e contemporaneidade que faz dessa uma das bebidas mais democráticas do mundo.
O café ganha status de instrumento de sociabilidade quando chega à Europa, no século 17. Originário das montanhas da Etiópia, no Chifre da África, ele passou muito tempo sendo coisa de nobre e burguês. Beber café seguia regras, rituais e maneiras bem específicas de convivência, já que era caro, raro e considerado super exótico. O momento de tomar café era tão desejado que rolavam reuniões só pra degustação. Servido em peças luxuosas, ele ascendeu como um símbolo civilizatório e como uma nova forma de aproximar pessoas.
No Brasil, desembarca primeiro na mesa de famílias da elite rural, no século seguinte, e vai se enraizando aos poucos como parte dessa ideia de refinamento. Aí, quando as grandes lavouras disparam e os preços despencam, o grão vai se popularizando e atravessando as barreiras sociais. Uma iguaria que se espalha e absorve outros significados.
O café deixa de ser privilégio de poucos e passa a ocupar um pedacim especial no coração dos brasileiros, entrando na nossa rotina de um jeito natural com os avanços da economia. Vira presença constante nas manhãs e nas pequenas pausas que, quase sem a gente perceber, vão organizando o dia a dia. Sai das casas, vai pras ruas, pros espaços públicos coletivos. Se torna bebida pra qualquer hora, abrindo um saboroso território pros atravessamentos incontroláveis do cotidiano.
Assim que repousa no copo, café vira esse lugar. Lugar de aproximação, de cuidado, de identificação, enfrentamento, afeto e muitas outras vivências.
Onde quer que aconteça, é ponto de partida pra conexões humanas em diferentes contextos e realidades. Lugar pra uma sincera troca de perspectivas. Onde se encontram velhos e bons amigos, e até pessoas que nunca se trombaram antes. E que acabam virando amigas também.
Em São Paulo, você me encontra frequentemente no meu lugar favorito pra gente seguir nesse intenso fluxo de histórias sobre café (e outras coisas legais), sempre com um bom coado por perto. Te espero no FFV.
Nayla Avelar






Nayla ❤️